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10.11.04
- Mister Wilson, you changed my life. Thank you. - Thank you. Isso poderia resumir tudo. Mas vou ser mais completo - e mais extenso também, advirto-os de cara. "Brian Wilson, um dos maiores gênios vivos da música pop mundial é nome confirmado para o Tim Festival que acontece em novembro em São Paulo". Assim dizia a nota de uma coluna de jornal que me pegou de olhos ainda semicerrados, recém-despertos pelo menos até aquele minuto. Ao ler a boa nova, as pernas quase fraquejaram. Li, reli, não acreditei, reli novamente - e a partir daquele momento era como se eu relesse aquela nota todos os dias em minha mente. Difícil acreditar. Se já estava há anos conformado com a forte possibilidade de o meu maior ídolo jamais se apresentar em meu país, como agora poderia crer que isso aconteceria, e em um par de meses ? E as confirmações foram então vindo. Os rumores se faziam valer em notas oficiais da organização do festival, em entrevistas com o próprio - e, claro, com a venda de ingressos. E mesmo depois de garantir meu lugar na mesa G2 do setor A, ainda assim não me sentia sossegado. Só ficaria realmente tranqüilo quando estivesse a poucos metros do milagre musical de Brian e sua banda. Passados dezenas de dias e quase meia dúzia de sonhos relacionados à ocasião, lá estava eu em São Paulo. Lá estava eu na desejada mesa. E lá também estavam amigos - uns preparados pra finalmente conhecer mais a fundo o que sempre tentei compartilhar com eles, e outros que já sabiam o que esperar: o melhor dos inesperados. E ele veio do jeito mais especial possível. Quando Brian Wilson começou o espetáculo, fazendo soar as primeiras notas de "Sloop John B.", eu despertei pro maior encontro musical da minha vida. Minhas esperanças ganhavam vida e minhas expectativas se enfraqueciam em prol de uma realidade que se fazia muito mais bonita do que elas e do que eu jamais poderia conceber. A cada música produzida em vozes, sopros, acordes, batidas e ruídos por Brian e sua (magnífica) banda, me via nesse quarto em que agora escrevo essas palavras tocando os discos; podia ver meu irmão mostrando "Fun Fun Fun" e "Barbara Ann" em vinis praquele moleque de ouvidos quase virgens de rock; me lembrava das doçuras e das dores amorosas embaladas pelas estrofes e refrões dos Beach Boys; me projetava no futuro ideal, em que tocarei "Wouldn't It Be Nice" pra mulher da minha vida, pedirei "God Only Knows" pra me despedir momentaneamente dos amores e amigos, mas não sem antes expôr todo o Pet Sounds muitas e muitas vezes, anos, incontáveis anos, às crianças que hão de perpetuar por aqui minha vida e meu amor. Ao final daquele espetáculo, só me restava ver nos olhos das pessoas - e dos meus amigos em especial - e as deixarem encontrar nos meus o brilho que resumia tudo que havíamos acabado de experimentar. Sorrisos em profusão, palavras se perdendo em definições vãs porém sempre muitíssimo bem intencionadas...enfim, alegria em seu estado mais puro. Esse sentimento eu e meu amigo Daniel Cariello tivemos a felicidade de captar em Darian Sahanaja, tecladista e uma espécie de "capitão" da banda de Brian, ajudando-o a reger com primazia o show. O encontramos perto de um bar, fomos lá cumprimentá-lo e pedir autógrafos. Acabamos ganhando não apenas o que fomos buscar, como também um ótimo papo, confidências e impressões, alguma confiança de rever Brian em novos shows por aqui...e um novo amigo, de fato, sem fugir da real acepção da palavra. Mais um presente ganho na inesquecível noite de 7 de novembro de 2004. Dormir foi difícil. Na mente, as lembranças vívidas, e a expectativa por um novo encontro com Brian Wilson - dessa vez numa megastore, para a tarde de autógrafos de Smile. O que dizer a ele ? Apertar a mão ou não ? Esses eram apenas dois dos muitos assuntos debatidos com os colegas que aguardaram comigo pela chegada de Brian por quase três horas. Quem visse de fora certamente enxergaria crianças em corpos de adultos, animadas, ansiosas, felizes. Eu era a quinta pessoa da fila. A chegada de Brian foi saudada com efusivos aplausos. Aparentemente descansado, ladeado por um amigo/assistente e vários seguranças da loja, nós logo vimos que o ritual do autógrafo seria algo quase que mecânico - até porque a fila já estava bem grandinha, tendendo a aumentar, e um senhor de 62 anos não pretendia ficar ali por pouco mais do que uma hora. Mesmo tendo a confirmação disso tudo no tratamento dado pelo tal amigo/assistente às quatro primeiras pessoas, intermediando completamente o contato delas com Brian, fiz que não era comigo. É quando voltamos ao melhor pequeno diálogo da minha vida com que comecei esse texto, enriquecido pelo aperto da mão daquele que, mais do que tudo e todos, me fez querer ser músico - e pela foto tirada por Cid, o sexto da fila. Queria ter podido falar mais, mas creio ter conseguido ser bastante eloqüente na frase que saiu de mim naquela hora. Também queria que o clima sensacional daqueles dois dias pudesse durar eternamente. Só não preciso desejar que eu volte no tempo pra rever o show de Brian Wilson. Tecnicamente, foram cerca de 110 minutos de espetáculo. Para mim, no entanto, ele continuará para sempre. Love & mercy, Carlos Alexandre// P.S.1: Esse texto também se encontra no blog do site da minha banda, Netunos - http://www.netunos.com.br. P.S.2: Agradeço a todos os amigos, novos e antigos, que comigo compartilharam essa imensa alegria - e em especial, Ana Laura e Mariane, sempre queridas demais, amadas demais; Cid e JP, companheiros de jornada; e Daniel Cariello - cara, nós conseguimos... |